Lembranças
I – Do lado de cá
O tempo revira-te inteiro e brinca sutil com seu avesso. Você, insone, vê passar noites e as vira. Nos avessos da noite que no sal das lágrimas e suor uivam, também uiva você à lua
II – Do lado de lá
A noite vira ao avesso seu sono bom e se sente violentada pelo seu escuro, que adentra seus pensamentos, como se em suas entranhas úmidas do desejo encontrasse refúgio não te deixando adormecer. E ele entende? Nunca entenderá. Exige agora, o rapaz dos versos, seu amor de imediato. E você entende? Nunca entenderá. O tatear da noite pelas palmas brancas de suas mãos criam uma necessidade plena, e a certeza nunca foi tão forte acerca de que o ama. O mensageiro que te leva a ele todas as noites e traz respostas, mero avanço da ciência transcrevendo palavras dosadas pela esquiva, pelo medo. Seus olhos abrigam todos os sonhos do mundo, seu coração, de todos, é o mais faminto. Fera selvagem, que voraz devora a carne, e te faz sentir satisfação de mera momentaneidade. Também tem suas lamúrias nos delírios da penumbra que cai sobre seu quarto tal qual treva, maldição-do-faraó. Nos mesmos avessos que te vira a noite, que vira a todas as cabeças aceleradas, desprovidas do direito ao gozo do descanso, vira você também, com sabe-se lá quantos rostos. Atrofiada dentro de si mesma, seu rosto pálido de tantos sorrisos e seu corpo saudável de tantos abraços, clamam compreensão no cair da alta madrugada. Insatisfação. Coração voraz. Cabeça de inúmeros sonhos. Acende a luz e na última tentativa de se encontrar por meio de alguém, abre um livro onde à caneta está escrito: "Que a lembrança conserve o sabor do encontro, e até da despedida, assim como de tudo entre os dois." E segue uma mera pretensão, que por cuidados não chegou a seguir o texto, mas na cabeça do rapaz, ali está em letras pouco maiores: Eu te amo.

